Barral Lima fala sobre mercado cultural, música independente e mais

Barral Lima é compositor, músico, produtor e CEO do Grupo UN Music, empreendimento que abrange uma gravadora e produtora de eventos (Ultra Music), uma editora e produtora de audiovisual (Neutra) e um selo (Under Discos).

Como produtor musical e instrumentista, atuou ao lado de artistas como Lô Borges, Milton Nascimento, Flávio Venturini, Marku Ribas, Samuel Rosa, Fernanda Takai, Sá & Guarabira, Toninho Horta e outros.

Através de sua faceta como empreendedor cultural, idealizou e realiza periodicamente festivais importantes como o MARTE Festival, Palco Ultra, HipHop.doc Festival, BH Rock Week, Música & Deguste, Bossa n’Jazz Gourmet, Circuito Instrumental e Todos os Sons – Festival da Canção.

Na esfera social, foi presidente da AMAV (Associação Mineira de Audiovisual) e atualmente é Presidente do SINDAV – Sindicato da Indústria do Audiovisual de Minas Gerais.

Além das citadas atividades, também atua como palestrante e membro de delegações culturais. Ele já esteve presente em vários festivais e feiras nacionais e internacionais como: Womex (Hungria, Inglaterra e Espanha), APAP (NYC_USA), MIC Sul (Argentina), Mussikmesse (Alemanha), SIM_SP (SP/Brasil), RIO2C (RJ/Brasil), Samba Fest (Hartford, USA), SXSW (Texas_USA), Hack Town (MG/Brasil), MIA (SP/Brasil), CMJ (NYC_USA), Formemus (ES/Brasil), FIMS (PR/Brasil), TUM (SC/Brasil), BMS (BMA/SP), MAX_MG.

O Rotasongs conversou com Barral sobre mercado cultural, preparação do setor em tempos de pandemia, produção musical, empreendedorismo na cena independente, músicos promissores e outros assuntos.

Por Álvaro Silva / Foto de capa: Ed Zimerer

Como é ser empreendedor musical no Brasil?

Quando você começa, parece que embarcou numa grande aventura. Todavia, aos poucos você vai adquirindo conhecimento, fazendo relacionamentos e as coisas começam a se profissionalizar. Quanto mais você se profissionaliza, mais vai criando segurança e alcançando os resultados almejados. É preciso planejar bem para diminuir os riscos, pois a indústria da música é muito dinâmica. Pode-se dizer que ela está integralmente relacionada com a tecnologia, então você precisa estar sempre pesquisando para buscar novos conhecimentos. Além do mais, é um dos mercados que mais cresce no mundo, mas os grandes recursos estão em poucas mãos. Os grandes grupos empresariais dominam esse mercado, mas existe lugar para todos. Para se destacar, é essencial descobrir o seu nicho de atuação, criar produtos autênticos e de qualidade, primando sempre pelo melhor serviço. Para empreender no mercado da música, também é preciso de uma coisa muito importante: amar o que se faz. Se você não ama a música, dificilmente você terá perseverança para seguir em frente, pois é um mundo instável.

Barral Lima.

Uma das atividades que você desenvolve é a produção cultural, através da organização de diversos festivais importantes ligados ao mercado audiovisual. Em razão da pandemia muitos shows e eventos precisaram ser cancelados e, mesmo após a retomada, ainda pairam muitas incertezas. Como está o circuito de apresentações atualmente? O setor está preparado para se adaptar a essa nova realidade ocasionada pela pandemia?

Ninguém nunca esteve preparado para uma situação como essa. O setor de eventos muito menos. Mas a vida é um aprendizado, desafios como esse nos tornam mais fortes e, de alguma forma, vamos encontrar novos caminhos. Com certeza estamos mais fragilizados e vamos precisar de muito tempo para recuperar os prejuízos causados pela pandemia, mas é preciso se reinventar, buscar novos caminhos. Eu creio que teremos uma volta dos eventos com muita intensidade, pois todos precisamos do encontro, de vivenciar experiências com o outro, isso faz parte do ser humano. Em breve estaremos de volta, mas certamente teremos algumas mudanças e precauções. 

No início da pandemia as lives realizadas por artistas foram uma constante, mas hoje parece que elas deram uma esfriada. É um formato que deu certo?

No início era a única saída, então foi muito intenso. Era a única forma dos artistas se conectarem com o seu público, era um respiro. É importante mencionar, que o audiovisual sempre foi o maior parceiro da música, haja vista a MTV nos anos 1990. Audiovisual e música se completam e um alavanca o outro. Então, pode-se dizer que esse formato já dá certo há muito tempo. Assim com a TV foi para o futebol a partir da década de 1930, ampliando a sua difusão, a música também seguiu esse caminho e tem sido um grande negócio para a indústria do entretenimento. A transmissão dos grandes festivais, dos grandes concertos pode aumentar muito o ticket e rentabilizar para os artistas e produtores. Por outro lado, o fã sempre quer ter seu artista por perto, na intimidade. Ver seu artista predileto fazendo um show despretensioso na sala da casa dele, com as crianças correndo por lá, é uma experiência nova. E isso também pode ser rentabilizado juntos às marcas, os patrocinadores. Ainda surgirão muitos negócios em torno disso. 

O que o artista independente pode fazer para que o formato lhe seja rentável?

Acho que precisa de criatividade sempre. O primeiro ponto é pensar na qualidade, isto é, estar num ambiente propício, com um bom sistema de som, se possível mais de uma câmera para ter dinamismo nas imagens. Também é fundamental se preocupar com a luz, criar uma cenografia criativa (mesmo que simples) e fazer muita divulgação. Se você consegue reunir antecipadamente as pessoas que gostam do seu trabalho em suas redes sociais, você terá mais facilidade para divulgar para as pessoas certas, já que o foco no seu público economiza suas energias, tempo e promove um resultado muito positivo. Ser objetivo na comunicação também é sempre importante. Além disso, escolha uma data e um horário que você consiga reunir mais pessoas. Facilite sempre a presença delas. Um outro conselho: não se preocupe inicialmente com a quantidade de pessoas que está assistindo, o importante é a qualidade do seu público.

Essa base inicial é importante para trazer mais pessoas se o seu trabalho for interessante para elas. Consequentemente, elas irão promover a sua próxima live. Quando você tiver um pouco mais de público, você pode colocar um QR Code na tela para começar a monetizar. Os fãs geralmente gostam de contribuir. É interessante também criar shows temáticos, homenageando algum artista, época ou estilo. Isso seduz o público e diversifica as suas apresentações.

Incentivos culturais públicos são uma realidade incontestável em muitos países, até porque a cultura é um setor que gera muitos empregos e move outros aspectos importantes da economia, como por exemplo, a arrecadação de impostos. Por que no Brasil o setor cultural é alvo de tantos ataques realizados por autoridades públicas que deveriam incentivá-lo?

Na verdade, esses ataques têm sido intensivos nos últimos três anos, dentro desse governo atual. Temos leis de incentivo à cultura em muitos Estados do Brasil, a Lei Rouanet, hoje Lei Federal de Incentivo à Cultura, por mais que tenha muitos problemas, foi suporte para muitos projetos e artistas. Temos também a ANCINE (Agência Nacional do Cinema), uma importante agência que financia o audiovisual nacional há décadas. Agora, infelizmente, estamos vivenciando uma era de desmonte geral da cultura no Brasil. Temos as piores pessoas nos cargos mais importantes da cultura do país. Pessoas que não sabem nada sobre política pública cultural e querem apenas fazer campanha política para pessoas totalmente desinformadas.

A aprovação da Lei Aldir Blanc, que salvou o setor cultural na pandemia, foi uma grande luta da classe artística, ela deveria ter sido totalmente facilitada já que o setor estava totalmente paralisado, sem nenhum apoio e foi o que mais contribuiu para a saúde mental das pessoas naquele pior momento da pandemia. Afinal, o que todos ficaram fazendo em casa? Assistindo a filmes, séries, programas de TV, ouvindo música, lendo livros… Enfim, fomos os mais consumidos e os menos valorizados. Precisamos de mudanças governamentais urgentes se quisermos salvar a nossa cultura, a nossa história e, principalmente, a nossa dignidade.

Em termos de políticas governamentais, o que você acha que poderia ser feito para estimular nosso setor cultural?

Colocar as pessoas certas nos lugares certos. Pessoas competentes, que conheçam e gostam de cultura. Mas para isso, precisamos mudar tudo que está aí hoje. Essas pessoas que estão governando o país não sabem o que é isso. Neste ano, temos uma grande oportunidade para começar a mudar, pois é ano de eleição, de escolha. Estamos lutando há três anos para perder o mínimo do que conquistamos nos últimos 20 anos na cultura, mas a cada dia as coisas só pioram. A cultura precisa de pessoas que a amem e que se emocionem com as perdas de nossos grandes artistas como João Gilberto, Beth Carvalho, Aldir Blanc, Moraes Moreira, Nelson Sargento, Paulo Gustavo, Elza Soares etc. É preciso ter alma e coração.

A iniciativa privada poderia participar mais ativamente do setor?

Sim, claro. Entretanto, seria necessário um maior incentivo do Governo para isso. Em Minas, por exemplo, eles estão acabando com a Lei de Incentivo à Cultura porque querem que as empresas injetem dinheiro no Fundo Estadual de Cultura (45% do valor do patrocínio precisa ser destinado ao Fundo) e ainda deem uma contrapartida de 5% do valor do patrocínio. Quer dizer, querem que os artistas trabalhem para o governo, de graça, fazendo captação de recursos junto às empresas, o que é dever do Estado. Hoje temos 40 milhões no fundo e ninguém sabe para onde vai essa verba.

As marcas estão sempre ligadas a projetos interessantes. Poderiam estar muito mais próximas se tivessem mais incentivos, assim como acontece na indústria automobilística, na mineração, no agronegócio etc. Mas isso só vai mudar quando enxergarem a cultura como indústria e não como hobbie.

O mercado musical é um ramo extremamente competitivo. Pensando na situação de um artista/banda, além de oferecer um material de qualidade, o que ele pode fazer para se destacar nesse cenário?

Pois é, hoje tudo mudou muito. Até a década de 1990, as gravadoras dominavam. Não que hoje elas não tenham um grande poder, mas não é mais como era antes. Hoje, o artista tem a condição de produzir, divulgar e vender o próprio trabalho sem precisar de uma “major”, o que era impensável há 30 anos. Temos por aí grandes artistas que estão em crescimento exponencial, sem precisar das majors. Aliás, elas ficam loucas para tê-los em seus catálogos. 

Obviamente, existem diversos fatores que contribuem para esse crescimento. Eu gosto de resumir tudo em três frentes importantes: autenticidade, comprometimento e networking. Para mim, se o artista é autêntico, tem uma música verdadeiramente diferenciada, se compromete 100% com o seu trabalho e dedica um tempo fazendo bons relacionamentos, alcançar o sucesso é questão de tempo. Ah, e não pode ter pressa, pois o trabalho artístico é um exercício da paciência. Dentro do comprometimento está a constância, o artista precisa estar sempre produzindo, lançando novos produtos no mercado e criando repertório. Essa é uma forma de você criar e manter o seu público cativo. Você precisa se conscientizar que o seu maior cliente é o público e que você precisa alimentá-lo constantemente. Se você não faz isso, o público se dispersa e você vai precisar recomeçar novamente.

Não é uma tarefa fácil colocar em prática tudo o que falei, mas é o seu trabalho enquanto artista. Assim como a indústria automobilística lança novos modelos de automóveis todos os anos, você também precisa criar lançamentos. Não estou comparando arte com automóveis, estou falando de negócio. Quando o artista compreende que música também é negócio, que precisa de planejamento, investimento e conhecimento, ele vai sempre colher bons frutos no futuro.

Muitos artistas famosos têm se manifestado veementemente contra a baixa política de remuneração oferecida pelas plataformas de streaming. Essa questão possui a mesma relevância para o artista independente?

Sim, mas exitem muitos artistas independentes fazendo um bom dinheiro no streaming. O que antes era impossível, hoje é uma realidade. O pop, o rap e o funk possuem números extraordinários. Alguns desses artistas nunca pisaram num palco, e muitos deles começaram durante pandemia. Acho que, de certa forma, isso tem sido muito pior para os artistas mais famosos do que para os independentes, que antes nem eram remunerados porque suas músicas não eram executadas publicamente. Mas claro, existe uma conta aí que não fecha, além de faltar muita transparência. O Spotify, por exemplo, é uma empresa que fatura US$ 10 bilhões anuais e seu fundador, segundo a revista Forbes, multiplicou sua fortuna 15 vezes nos últimos 10 anos. Tudo bem que é uma grande invenção, o cara criou um negócio que democratizou a música etc. Mas nunca se pagou tão pouco por direitos autorais em relação a grande arrecadação mundial. São mais de 180 países. Entretanto, eu acredito que o blockchain vai conseguir dar muita transparência a isso tudo. É uma questão de tempo.

Ao longo dos anos você produziu diversos artistas, alguns deles iniciantes; outros nomes já consagrados. Analisando em retrospectiva, como esses trabalhos moldaram sua visão sobre a música e a atuação como produtor? 

Para mim, produzir é o melhor momento na música. Ter a oportunidade de construir o conceito de uma canção ou de um álbum juntamente com os artistas é muito prazeroso e gratificante. A cada trabalho você aprende muito, tanto na parte técnica e musical quanto na parte humana. Estar com um artista dentro de um estúdio é um trabalho que requer uma intimidade muito grande. Eu sempre gosto de ter tempo para conhecer mais os artistas e construir uma relação além do trabalho. O que se aprende em cada projeto é muito valioso e você realmente vai moldando sua visão não apenas sobre a música, mas também sobre a vida, pois estamos a todo momento trabalhando com sonhos.

Como produtor, aprendi a tratar cada projeto como único. A ajudar os artistas a se descobrirem mais, a encontrar realmente a sua autenticidade e apostar muito nisso, isto é, buscar o diferencial e tentar sempre ir além do “normal”, arriscar sem medo para chegar em algum lugar que seja único.

Sair do lugar comum é o grande desafio que quero cada vez mais propor para os artistas com quem trabalho.  

Através da Neutra, você lançou trabalhos com partituras de artistas seminais da nossa música como Milton Nascimento, Flávio Venturini, Lô Borges Beto Guedes e tantos outros. Como surgiu essa ideia?

Essa ideia surgiu quando eu estava trabalhando com o Lô Borges. Quando comecei a tocar com ele, percebi que a maioria das pessoas não tocava os acordes das músicas dele corretamente, isto é, exatamente como ele tocava. Além do mais, havia muitos detalhes importantes nas harmonias que poucos conheciam. Isso me chamou a atenção, pois faltavam registros em partitura da nossa música mineira. Grandes compositores do Clube da Esquina tinham poucos registros em partituras de suas obras. Imagine que o Milton Nascimento nunca tinha lançado um registro como esse até então. Um compositor do nível dele, com centenas de obras importantíssimas para a música mundial. Daí eu sugeri ao Lô para produzirmos um compilado com as suas principais canções e ele topou na hora. Praticamente foi a minha pós-graduação em música.

Diante do sucesso desse lançamento, acabei indo conversar com o Beto Guedes, depois com o Flávio, com o Milton, com o 14 Bis e outros. Tudo foi fluindo naturalmente. Afinal, qual compositor não quer ver a sua obra sendo registrada dessa forma? Acho que é um presente, tanto para os compositores quanto para os estudantes, fãs e todos os amantes de música.

Além dos songbooks, a Neutra já lançou algumas biografias musicais interessantes como a do Andy Summers (ex-guitarrista do The Police), do Miele e do Rodrigo Santos (ex-baixista do Barão Vermelho). Vocês pretendem explorar mais esse nicho lançando novos títulos?

Na verdade, todos os nossos lançamentos biográficos foram oportunidades que surgiram em consequência dos lançamentos dos songbooks. Isso foi fantástico porque mostrou uma confiança do mercado no nosso trabalho. Sempre existem novos autores nos procurando com novos títulos, mas os custos de produção são muito altos para editar um livro. Em contrapartida, apesar da procura ter aumentado, as vendas de livros ainda são tímidas no Brasil. Apesar disso, temos a intenção de ampliar nosso catálogo, mas precisamos esperar passar esse momento de sucateamento da cultura para abraçar novos projetos. Não é mera coincidência, mas não conseguimos lançar nenhum título desde 2019.

Você fez parte do Radar Tantã, uma importante banda da cena pop rock undergound mineira. Existem planos para a retomada das atividades da banda?

Sem chances (risos). Acho que tudo tem o seu momento. Naquela época tinha todo um contexto, tínhamos a MTV que acolheu a banda e gostávamos de fazer videoclipes criativos. Eu tinha quase a metade da idade que tenho hoje e falava para o público dessa mesma geração. Vivenciava aquele momento. Eu adoro o palco, mas hoje me divirto mais tocando com minha banda de black music instrumental, o Refinaria Black. O Radar foi muito especial porque eu gostava de compor junto com o pessoal e de produzir os discos, fizemos dois álbuns dos quais tenho muito orgulho e deixamos aí para a história. Foi uma época em que conheci muita gente importante do mercado e que até hoje colho os frutos. Eu fazia o networking da banda, então ela me ajudou muito a aproximar de grandes personalidades da música que hoje são grandes amigos.

Quais artistas independentes têm chamado sua atenção ultimamente?

Nossa! Existem muitos e muitos… eu ouço música nova frequentemente, percebo que a cada dia surgem artistas maravilhosos na música brasileira. Tenho gostado muito do afropop e do rap, essas misturas do eletrônico com os ritmos africanos, beats etc. No Brasil, temos novas compositoras como Agnes Nunes, Tasha & Tracie, Ruby, Carla Sceno, Elana Dara, Budah etc. Todas muito talentosas. Eu ouço tudo, erudito, jazz, samba, rock e MPB, dos mais antigos aos mais novos, mas tenho gostado mais da renovação. Acho importante estar sempre conectado ao presente.

Um conselho para quem está começando a se aventurar pelo mercado musical, seja como artista ou empreendendo de outra forma.

Autenticidade, comprometimento e networking. É só isso!

Maiores informações no site, Facebook, Instagram, Twitter e YouTube do Barral Lima.

Clique aqui para acessar o site da UN MUSIC.

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