Hammond Trio: bate-papo com o organista Du Rompa

Músico desenvolve trabalho autoral e instrumental com ênfase no órgão Hammond.

O órgão Hammond é um instrumento de sonoridade expressiva e peculiar, grandes músicos de variados estilos musicais fizeram fama pilotando suas teclas, dentre eles Jimmy Smith, Richard “Groove” Holmes, Jimmy McGriff, Dr. Lonnie Smith, Booker T. Jones, Keith Emerson, Jon Lord, Steve Winwood, Brian Auger e por aí vai.

No Brasil, um músico vem se destacando com um trabalho autoral muito bacana que enfatiza a sonoridade do Hammond mesclando soul, jazz e ritmos brasileiros, trata-se do organista Du Rompa. Além de capitanear o Du Rompa Hammond Trio, atualmente ele participa de outros projetos bem interessantes, como as bandas Rio Grande Blues e Astroxé.

Em 2020, acompanhado pelos músicos Eduardo Machado (guitarra) e Leandro Neves (bateria e percussão), ele lançou “Sol e Poeira” – primeiro álbum completo da banda Du Rompa Hammond Trio. O projeto saiu pelo selo “Blue Crawfish Records” e contou com a participação especial do percussionista Emílio Martins em todas as faixas.

Conversamos com o Du Rompa a fim de conhecer melhor seu trabalho, influências musicais, as peculiaridades que envolvem o órgão Hammond e muito mais.

Por Álvaro Silva (ahfsilva@gmail.com)

Fotos por Renato Petean

Quais foram os organistas ou bandas que te inspiraram a tocar órgão Hammond?

Du Rompa: Atualmente minha maior influência é o Dr. Lonnie Smith. Ele é dono de uma sensibilidade e interpretação sem igual, capaz de tirar qualquer coração sensível do enredo cotidiano e mergulhar pelas entranhas de sua música. John Medeski, do trio nova-iorquino Medeski, Martin & Wood, foi um cara que ouvi muito nos meus vinte e poucos anos. Ele que despertou minha vontade de tocar o instrumento a partir de uma abordagem essencialmente instrumental, principalmente por sua proposta sonora cheia de texturas e bastante ruidosa, sem deixar de lado a musicalidade.

Na adolescência, tocava em uma banda chamada Psicotrópicos. Desenvolvíamos canções autorais num esquema “rock’n’roll prog de garagem” (se é que assim posso chamar). Além disso, tocávamos também algumas interpretações que me influenciaram muito, coisas como Deep Purple, Grand Funk e afins (na época usava um Korg com timbre de Hammond).

Importante também ressaltar que a levada brazuca de Ed Linconl me toca muito, assim como as levadas de sanfona, começando por Luiz Gonzaga e passando pelos grandes Sivuca, Dominguinhos, Mestrinho e essa galera toda.

O órgão Hammond não é um instrumento muito fácil de ser encontrado aqui no Brasil. Como você se vira quando é preciso fazer algum tipo de manutenção no instrumento?

Du Rompa: Essa é uma questão bastante relevante pra quem quer tocar Hammond aqui no Brasil. Sou grato por ter o Warwick em Sampa, que apesar dos oitenta e poucos anos, está firme e forte. Mas ainda assim, o peso do instrumento e a distância dificultam bastante. Inclusive, essa semana quebrou a chapinha de uma das notas da minha pedaleira. Desparafusei a chapinha de aço do local (pois só a pedaleira já é bastante pesada pra ficar carregando) e levei até um serralheiro para refazer e rebitar no lugar, depois tirei o courinho da chapinha antiga e colei. Em algumas situações como essa acabo me virando como dá, recebo dicas do Warwick (ele é quem provê assistência de manutenção quando preciso). Aliás, adquiri meu Hammond C3 “sessentera” dele. Porém, a dificuldade é que o Hammond vintage é bastante pesado e o Warwick trabalha em São Paulo e meu instrumento fica em Piracicaba, onde moro.

Hoje em dia existem vários teclados que simulam a sonoridade do órgão Hammond. Algum modelo que você conhece chega perto da “coisa real”?

Du Rompa: Olha… sempre falam do Nord, mas nunca experimentei. Tenho um Xk3 System da própria Hammond (que foi comprada pela Suzuki no final da década de 80). Instrumento digital com toda estrutura de madeira como o analógico, que uso na maioria das vezes quando tenho que sair de casa pra tocar. Apesar de a sonoridade ser muito próxima, não é a mesma coisa, ainda mais quando se fala de tocabilidade, quesito em que ressalto três questões: a primeira delas é que o pedal de expressão analógico com sua estrutura de mola favorece muito a expressividade do que eu chamaria coloquialmente de efeito onda, muito usado principalmente no gospel americano e também no folk, pop e afins; a segunda é que no Hammond eletromecânico, quando se toca uma nota, conforme vamos afundando seu curso, os drawbars configurados (barras de harmônicos) vão sendo acionados um a um, do mais agudo pro mais grave, já o Xk3 não tem esse recurso. O Xk5 e o New B3 (ambos da Hammond Suzuki) têm; um terceiro recurso, que a princípio não se tem nos teclados (apesar de poder ser implantado), é a chave analógica de liga e desliga da Leslie, que quando é no botão, além de não ter aquele “tesão” de sentir a chavinha ao acioná-la, fica um pouco mais difícil de acertá-lo. Já ocorreu em gravação de eu apertar o botão para desligá-la no fim da música e o botão não corresponder. Enfim, quem já tocou no Hammond eletromecânico, sabe que pode se chegar perto com teclados muito bons, mas nunca será o mesmo.

Como você definiria a sonoridade do Du Rompa Hammond Trio?

Du Rompa: Começo dizendo que gosto da ideia de música universal de Hermeto, pois as influências de fato são muitas, mas acho possível tatear um pouco mais. Fazendo uma brincadeira, eu diria que soamos um pouco do soul jazz em território brasileiro ou que soamos muito do Brasil no formato de soul jazz. Digo isso porque temos a formação típica de órgão trio em que o organista conduz o baixo com uso da pedaleira e da mão esquerda, juntamente com guitarra e bateria, e as influências dessa “raiz hammondeira” que vem lá do soul jazz, são inevitáveis. Por outro lado, vibramos, vivemos e estudamos muito da música brasileira e isso faz a sonoridade do trio, alçado à leves pitadas de ruídos no órgão e utensílios de cozinha na bateria.

Ainda gosto de acrescentar um terceiro elemento, que é a questão plástica e imagética que acredito soarmos, ou seja, mais do que buscar acordes rebuscados ou habilidades técnicas virtuosísticas, gosto de criar ambientes e enredos musicais que possibilitam criação de imagens interiores em quem aprecia, buscando trazê-lo um pouco mais junto da música. Encarando dessa forma, também creio que a música instrumental seja mais sociável e democrática, ampliando um pouco a apreciação específica da classe musical para um âmbito mais geral de arte. Um exemplo disso é a música “Sol e Poeira”, em que trabalhamos bastante para que ela soasse como uma atmosfera árida, usando inclusive pratos especiais e caxixis, criando assim ambientes de texturas para favorecer essas imagens, intercalando com inserções de ação no decorrer da trama musical.

Sol e Poeira”, seu disco mais recente, foi lançado ano passado. Ele foi concebido dentro do contexto da pandemia ou o material já estava pronto e gravado?

Du Rompa: O álbum foi lançado em streaming justamente quando iniciaram as restrições (março de 2020), então não fizemos shows ao vivo, apesar do LP em vinil ter sido lançado neste ano de 2021. Portanto, quando o álbum foi produzido durante o ano de 2019 nem imaginávamos o que estava por vir.

Como foi o processo de composição do álbum?

Du Rompa: O álbum “Sol e Poeira” tem uma alusão aos contrastes da vida: enfrentamentos e contemplação, inebriação e clareza, dores e alegrias. A música tema do álbum, de mesmo nome, só saiu aos quarenta e cinco do segundo tempo após assistir “Deus e o diabo na terra do sol” de Glauber Rocha, quando já estávamos quase com os pés no estúdio. Ela tem relação com a aridez dos sertões da vida e sua elasticidade temporal, remetendo ao tempo que se alonga no contexto desértico e o tempo que se encurta em momentos de ação. As músicas, na verdade, começaram a ser compostas em 2018. Os motivos que iniciaram a maioria das músicas partiram de situações imagéticas. ‘Rua 77”, por exemplo, foi composta a partir de duas situações num ambiente de memórias e sentimentos. O primeiro momento, imbuído da fantasia infantil, muito referente àquele colo carinhoso da minha pequena cidade natal, família, amigos e todo ambiente natural que pude vivenciar em meio às árvores, estradas de terra e afins. Por sua vez, o segundo momento, pós interlúdio, já é uma situação mais acordada, reflexiva em que a infância vai dando lugar à consciência de mundo. A música “No Balanço da Rede” foi composta na rede, em baixo do pé de manga no quintal de casa, uma valsa blues caipira representando a singeleza do ir e vir. Desde molequinho fui muito vinculado à plástica e às imagens, desenhava muito. Sou formado e especializado em artes plásticas academicamente, e isso também me influencia bastante nesses processos.

A quantas anda a ansiedade para poder executar o repertório do álbum ao vivo para o público?

Du Rompa: Lançar um álbum na boca da pandemia, quando se tinha expectativa de circular livremente com ele e não poder, não é tarefa fácil. No entanto, estamos aí e acreditamos que a preservação da vida, nesse momento, fala mais alto. Temos tido muita resposta positiva em relação ao álbum, principalmente pelos apreciadores de vinil, o que me deixa muito feliz nesse contexto virtual em que vivemos. A materialidade das coisas (como é o caso de botar um vinil pra rodar) engrandece a vida, quiçá as apresentações e os shows que tanto desejamos. Anseio inclusive por carregar esse “trambolhão” pesado e desajeitado, pra trocar aquela energia sem igual com público presente, sendo esse show do “Sol e poeira” então… nem me fale! Que esses dias cheguem no momento oportuno, somando positivamente com essa sede que estamos!

Você enxerga esse processo de reabertura para shows e espetáculos com boa expectativa?

Du Rompa: Cara, tento não criar muita expectativa, pra tentar manter o peito aberto e gingar conforme o que a dança do momento nos proporcionará. Sou daqueles que valoriza a vida de corpo presente. Então, mesmo que por “N” motivos certa parte das pessoas talvez se mantenham na vida virtual, principalmente por não precisar se locomover e por ter outras comodidades, acredito que teremos muita gente sedenta por encontros. Se rolar aquela muvuquinha boa nos shows ao vivo será sempre bem vinda.

Quais são os principais desafios de fazer música instrumental no Brasil? Você já pensou em investir numa carreira no exterior?

Du Rompa: No meu ponto de vista, o maior desafio da música instrumental no Brasil está em nossas mãos. É conciliar arte e povo, buscando elementos autênticos em sua arte, mas buscando também, fazer a ponte com a expressão da própria vida coletiva. A música se presta ao músico e o músico se presta ao povo, pois caso se preste somente a si mesmo e sua classe, arrisca empalidecer. Ele se torna mais músico na medida em que toca e engrandece o povo, lidando com as contradições de estranhamento e digestibilidade, ruídos e sons agradáveis. Buscar esse equilíbrio já ajuda bastante a ter o Brasil como companheiro da música instrumental. Neste sentido, não vejo problema no Brasil. Apesar do dito, é sempre bom agregar. A princípio não penso em investir no exterior, até porque voar não me é algo muito agradável. Mas o desejo de ver minha obra circulando por outros lugares, é algo presente.

Alguma novidade programada para este ano?

Du Rompa: Temos um projeto de álbum novo, mas creio que não pra esse ano. Fora isso, trabalho em outros projetos. Com outros projetos, tem coisas por vir e coisas lançadas recentemente. Estamos gravando com o “Astroxé”, que tem um projeto autoral bem na linha antropofágica neotropicalista: um álbum visual pelo Proac LAB, que provavelmente será lançado em setembro ou outubro. Ainda tenho também um álbum no formato tradicional que estamos gravando para ser lançado no fim do ano ou no ano que vem. Um outro projeto que participo, a banda piracicabana “Rio Grande Blues”, lançou seu quarto álbum no fim do primeiro semestre, com releituras de Robert Johnson, intitulado “Blues Agreement: tributo à Robert Johnson”, disponível nas plataformas de streaming.

Maiores informações no site, Facebook, Instagram, Spotify e YouTube do DuRompa Hammond Trio.

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