Nuno Mindelis fala sobre o disco “Angola Blues” e o recém-lançado livro “Por que Não Sou Um Bluesman”

Radicado no Brasil desde 1976, o guitarrista angolano Nuno Mindelis lançou no ano passado dois projetos bastante intimistas que revisitam as memórias de sua infância e adolescência: um disco e um livro.   

O primeiro a ganhar vida, ainda em abril, foi o álbum “Angola Blues”, que propõe ao ouvinte uma incursão aos ritmos de sua terra natal, sendo marcado pelas batidas percussivas, melodias ensolaradas e letras que misturam a língua portuguesa com dialetos regionais do país africano.

Já no início de dezembro, foi lançado o livro “Por que Não Sou Um Bluesman”. Valendo-se do uso de quatro alter egos, o autor traça todos os percalços vividos em decorrência do exílio forçado de uma guerra civil em Angola. Segundo suas palavras, trata-se de uma “biografia romanceada”.

Ao longo da entrevista, o artista contou detalhes sobre os mencionados projetos, falou sobre influências musicais, a parceria realizada com os músicos Chris Layton e Tommy Shannon (membros da Stevie Ray Vaughan & Double Trouble) e muito mais.

Por Álvaro Silva (rotasongs@gmail.com)

O disco “Angola Blues” é um retorno a suas raízes em Angola, na África. Como foi revisitar esse período de sua vida?

Nuno Mindelis: Após quarenta anos de exílio, fiz alguns shows em Angola. Há algo que a mente não controla, há um bichinho dentro de cada exilado. Se me perguntarem se quero tocar amanhã em Nova York ou em Luanda, eu prefiro a segunda opção sem titubear.

Este trabalho é um provável divisor de águas e uma imersão tão vasta quanto rara na minha própria vida, no meu passado, no que amei e perdi, nas lembranças ora duríssimas, ora felizes. Sinto-me especialmente animado com o legado que ele poderá deixar.

O que você ouvia nesta época?

Nuno Mindelis: Eu ouvia absolutamente tudo o que era lançado. Vários gêneros musicais distintos. No início, por volta dos cinco ou seis anos, ouvia música clássica. Artistas como Beethoven, Wagner e Chopin faziam parte do repertório que os meus pais ouviam e me estimulavam a ouvir. Também ouvia junto alguma música popular por tabela, chanson francesa, Gibert Bécaud, George Brassens etc.

Aos seis anos ouvi Beatles, aos nove ouvi Otis Redding. Por volta, dos onze ouvi Big Bill Broonzy, e a partir dele, todo o blues do Delta: Josh White, Robert Johnson, Skip James, Lightning Hopkins, Son House, Elmore James, Sonny Terry & Brownie McGhee e mais alguns.

Dos doze aos dezessete anos, foi a vez de Hendrix e toda a turma de Woodstock, bandas de rock progressivo inglês, blues britânico, jazz (Coltrane, Thelonious Monk e Charlie Parker Parker). Nesta época vi o fusion nascer (Return to Forever, Miles Davis, Mahavishnu Orchestra, Jeff Beck).

Do Brasil tinha também bastante coisa, Novos Baianos, Baden Powell, Secos & Molhados, Chico Buarque e Edu Lobo. Toda a turma da Jovem Guarda tocou por lá nas rádios. Assim como Jorge Benjor, que era Jorge Ben apenas. Quando deixei o país, aos dezessete anos, eu tinha milhares de LPs e singles.

É possível dimensionar a importância da música africana para o desenvolvimento da música ocidental?

Nuno Mindelis: Aqui vou me referir aos séculos vinte e vinte e um. Historiadores são unânimes ao afirmar que o blues veio da África. E ele deu origem a absolutamente tudo o que está aí: gospel, soul, rockabilly, rock’n’roll e todos os seus descendentes, jazz, metal, pós-metal, funk, acid jazz, rap, hip hop, tudo. Os Beatles são o maior símbolo popular da música ocidental do século vinte e seus heróis eram os rockabillies e rock’n’rollers como Elvis, Chuck Berry, Carl Perkins etc. Que por sua vez ouviam os negros do blues.

Se tirarmos música de raiz como o samba e mais uma coisa ou outra, tudo o que está aí é blues, cujo ancestral é a África. Aliás, o samba é descendente do semba de Angola. Na real, nem só o blues veio da África, quase tudo veio de lá. Pode não se perceber ou se lembrar disso, mas Beyoncé tem DNA blues. Tudo do pop, mesmo o feito ontem, que as rádios vomitam o dia todo, tem esse DNA também.

Em “Angola Blues” você mantém sua essência blueseira, mas a sonoridade apresenta uma maior diversificação em relação a seus álbuns anteriores. Você pretende seguir essa proposta em seus trabalhos futuros?

Nuno Mindelis: Estou pensando. Sou irrequieto. Mas mesmo que em um próximo projeto invente algo diferente, certamente voltarei ao tema de “Angola Blues” adiante. A minha guitarra e essa linguagem são provavelmente a minha assinatura.

Quais são suas canções preferidas de “Angola Blues”?

Nuno Mindelis: Eu gostei bastante dos resultados de adaptação de “Birim Birim” e “Monami Zeca”. Gosto de todas, mas achei que essas ficaram bem groovy e originais. “Cabinda” é minha mesmo, baseada no gênero “kuella” que ouvia por volta dos meus seis, sete anos de idade. Também achei que ela ficou bastante original.

A música “Muxima” conta com a participação do casal Airto Moreira e Flora Purim – grandes nomes brasileiros do jazz e da world music. Como surgiu a ideia de convidá-los para participar do disco?

Nuno Mindelis: Fiz um festival em que Airto e Flora também participaram. Ficamos muito próximos, pintou uma afinidade incrível. Sou muito fã desde a adolescência, lá pelos quinze anos, ainda em Angola, quando ouvi vários álbuns deles com a banda Return To Forever e outros trabalhos. Contei-lhes sobre isso, o tamanho que eles representam pra mim, mesmo sabendo que ninguém consegue transmitir um significado desses a ninguém. Muitos jovens me falam o mesmo e não consigo ter a noção exata da dimensão desse significado.

Na época em que eu estava gravando o “Angola Blues”, voltei para São Paulo, passaram-se um ou dois meses e recebi um uma ligação da Flora. O produtor do Festival tinha sugerido que participassem. Fiquei extremamente honrado com aquilo. Airto fez três músicas.

Você gravou dois discos muito elogiados (“Texas Bound” e “Blues on the Outside”) com Chris Layton e Tommy Shannon, membros da “cozinha” de Stevie Ray Vaughan. Como foi a experiência de trabalhar com esses caras?

Nuno Mindelis: Senti-me, acima de tudo, extremamente bem assessorado em todos os níveis, não só no musical, pois músicos altamente profissionais acrescentam muito além das execuções exímias. Como pessoas, como colaboradores em todos os sentidos, nos aconselhamentos, no backup mental mesmo – quando você está esgotado com longas viagens, fusos diferentes, rotina pesada em estúdio e não consegue raciocinar direito – lá estavam eles estendendo uma mão fundamental e resolvendo. Galera que resolve, de iniciativa.

Ao vivo, foi com eles o único episódio em que senti literalmente levitar no palco, tamanha a carga de coesão e volume. Assim que começamos a tocar parecia que eu tinha decolado. Incrível e única, essa sensação.

O que você tem ouvido atualmente?

Nuno Mindelis: Sempre Bob Dylan. Faz tempo que acho (com grande dose de certeza) que ele é o artista popular mais importante do século vinte. Dias atrás ouvi novamente o disco “Tubular Bells”, do Mike Oldfield. Ouvi muito esse disco quando eu tinha quinze anos. Ele foi o primeiro artista da Virgin Records (então uma gravadora independente). Álbum todo executado por ele. Também escutei o bluesman R.L. Burnside e as experiências electro blues que ele gravou com alguns malucos talentosos mais jovens.

Sempre ouço Otis Redding e Booker T & The MGs. Ouvi também a banda Alabama 3, uma experiência muito boa de atualização do blues, uma das melhores, na real. Ouço Jeff Beck com alguma regularidade, gosto de conferir tudo o que ele faz. Ele é um dos poucos artistas (junto com Dylan e Keith Jarret) que ainda compro o disco mesmo, não bastando o Spotify.

Conferi de novo “Paêbiru”, de Lula Cortes e Zé Ramalho.

Ouço muito pouco blues e, quando ouço, normalmente prefiro os pioneiros. Não ouço quase nada de blues contemporâneo, pois acho tudo igual. É a mesma fórmula repetida à exaustão há décadas. Dos pioneiros, geralmente ouço mais Jimmy Reed e Skip James, meus prediletos de Chicago Blues e Delta Blues, respectivamente.

Recentemente conferi o show do Liam Gallagher (ex-vocalista do Oasis) navegando pelo Tamisa. Lá está de novo o DNA blues que falei acima, que existe em todas as coisas, nesse caso vestido de rock.

Como você tem encarado a pandemia do novo coronavírus? Esse cenário sombrio tem te inspirado a compor novas canções?

Nuno Mindelis: Não “paniquei”, para ser franco. Tomo todas as precauções: máscara, álcool, distanciamento social, mas não deixei de fazer show quando convidado, nem de fazer lives em estúdio, nem de sair para resolver coisas. Passei por guerras e epidemias diversas na infância e adolescência. Talvez elas tenham me fortalecido em relação a enfrentar perigos. 

A pandemia não me inspirou propriamente, ela na verdade abortou o lançamento de “Angola Blues” (incluindo, além do Brasil, um tour extenso no Canadá). Tudo adiado indefinidamente. E a saga continua, pois a “segunda onda” fez estrago de novo, agora no Blue Note, em dezembro: o show “Angola Blues” finalmente aconteceu, mas muitos devolveram os ingressos dias antes por medo, porque o governo retornou à fase anterior, bem às vésperas da apresentação, com grande repercussão na mídia.  

Por outro lado, esse confinamento que já dura quase um ano me impeliu a fazer lives (de forma totalmente espontânea, antes de live virar moda) e agora acabo de lançar um livro (“Por Que Não Sou Um Bluesman”) que já estava escrito há uma década pelo menos, talvez também impelido pelo recolhimento.

Você poderia nos contar um pouco sobre o recém-lançado livro “Por que Não Sou Um Bluesman”?

Nuno Mindelis: Essa é uma biografia romanceada, são quatro personagens em tempos e realidades bastantes distintas umas das outras, o leitor mais atento perceberá que são todos a mesma pessoa: eu.

Perdi tudo aos dezessete anos de idade numa guerra civil complicada e sangrenta. Cheguei ao Canadá apenas com a roupa do corpo. Assim começa a minha descrição no livro. De lá, vim para o Brasil. Foram recomeços tortuosos, passei de uma infância e adolescência no tipo “Out of Africa”, em que a felicidade parecia eterna, tocando guitarra e mergulhando em um litoral dos sonhos, direto para um inverno de trinta graus negativos no Canadá, sem nada. Chegando ao Brasil, encontrei uma cidade cinzenta e agressiva, lembro-me também dos empregos que tive para sobreviver (sem largar a música enquanto pudesse) etc.

Onde encontrar o livro?

Nuno Mindelis: É possível encontrar o livro na Amazon. Ele está disponível na versão para Kindle e impressa. A Impressa, no entanto, só funciona bem lá fora (Europa. EUA, Japão, Canadá etc.), pois aqui não existe fabricação do tipo on demand pela Amazon brasileira. Então até dá para comprar a versão por aqui, só que vem de fora, em dólar, além de demorar de um a dois meses, mais shipping etc.

No momento estou trabalhando para conseguir fazer a versão impressa aqui também, seja mandando fabricar e realizando a logística eu mesmo, seja contratando uma editora on demand para fazer isso. Em qualquer dos casos, assim que conseguir, estará também na disponível na Amazon Brasil, mas custando mais barato e com entrega mais rápida. 

Alguma novidade programada para este ano?

Nuno Mindelis: Se pintar inspiração farei um novo álbum, mas queria poder lançar em LP… O que por si só já me desanima, já que o Brasil deve ser o lugar mais caro do mundo para se prensar um LP. É obsceno. Vou divulgar o meu livro (talvez escrever outro) e esperar para poder fazer shows como sempre. Nasci tocando e deverei morrer tocando.

REVIEW “ANGOLA BLUES”: O álbum é uma viagem ao passado de Nuno Mindelis para sua querida terra natal – Angola. O guitarrista funde com louvor elementos da música regional angolana com o blues rock que consagrou sua carreira. Solos de guitarra elegantes, bases suingadas e ritmos percussivos permeiam a maioria das nove faixas. Outro aspecto interessante, é a mistura de idiomas (português e kimbundu) presentes nas letras, poderia dar errado, mas funciona perfeitamente, conferindo um aspecto peculiar e afetivo ao trabalho. Um disco alto astral para aliviar o peso dos dias sombrios da pandemia. Destaques para “Birim Birim”, “Muxima” e “Mona Ki Ngi Xica”.

Clique aqui para ouvir “Angola Blues” na plataforma de streaming sua prefência.

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